BARRA DE VÍDEO


CONHECIMENTO PRÉVIO TP4

TECENDO PALAVRAS, PALAVRAS

Tecer é... também brincar com as palavras
Brincando com teia tecendo tecido
Brincando com palavras tecendo textos
É compor, coordenar, tramar
Organizar, preparar
Dar sentido ao novo sentido
Dizendo uma coisa para dizer outra
É construir o texto no contexto
É sentir o sabor e o saber delas
É pegá – las e não deixá-las no tempo
É encontrar para cada uma o seu momento

Vamos também tecendopalavraspalavras...?

Edenirce Maria

MEMORIAL

INTRODUÇÃO

"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". (Paulo Freire)

As ideias de Paulo Freire me remetem ao passado, ainda presente, da minha vida profissional. Busco essa inquietude para crescimento próprio; não me contento com o que aprendi enquanto aluna, procuro elevar meus conhecimentos pouco a pouco, mas sempre, com intuito de aprender para ensinar. Penso que os estudos não devem ser apagados, pois são eles o segredo do meu crescimento, a construção da minha história, reflexo dessa busca incessante.
No campo profissional, construí uma imagem direcionada para vários caminhos; sei que incomodei vários olhares, inquietei minha alma, mas consegui traçar meu perfil profissional. Estou me moldando através de experiências positivas e negativas, com os outros e comigo mesma. Pretendo com isso dar respostas ao projeto de vida que sempre sonhei e construí a minha história.
Quem não tem uma história para contar? Todo mundo tem. Nossa vida é uma história e Histórias nos falam de trajetórias, verdades intoleráveis, rupturas e continuidades e muitas felicidades também; é quando tecemos histórias dos outros, para os outros e de nós mesmos.
Segundo Neto (2006) “as histórias de tradição oral podem ajudar um grupo a criar uma identidade, dar às pessoas um sentimento de conforto e lealdade e ajudá-las a entender seus processos de mudança. As identificações com aquilo que é contado, de forma inconsciente, podem, num segundo momento, tornar as pessoas conscientes de suas potencialidades e também de seus pontos fracos. Ao final, o que se vê são descobertas, caminhos de individualização e crescimento.” (p.12).
Muito além dos muros da Universidade, tenho ainda sede do conhecimento, pois acredito que, quem educa vê o mundo com as diversidades presentes, dia a dia. Então há uma necessidade constante de construir e reconstruir.
Esse memorial me permite fazer um retrospecto de minha trajetória docente. Nasci em Coronel Fabriciano, recebi de herança de meus pais a coragem, a dignidade e a educação. Tenho uma família estruturada e feliz. Aos 18 anos, senti pulsar um forte desejo de me entregar a um trabalho que me desse frutos e que me tornasse uma pessoa melhor.
O ano de 1985 foi marcante em minha vida devido aos grandes desafios que se aproximavam de mim; meu pai sofreu um acidente de carro e ficou deficiente, minha mãe não suportou e entrou em depressão profunda, meus seis irmãos mais velhos se casaram , eu e mais duas irmãs ficamos responsáveis pela casa e por meus pais.
Era o auge da liberdade de expressão; lembro-me do país voltado para as reivindicações, os jovens em busca de seus sonhos. Eu fazia parte desse grupo e queria um novo caminho. Era momento de escolher a universidade e para isso contei com a orientação das professoras Rosalva e Maria Tereza, da Escola Estadual “Alberto Giovannini”, onde cursei o Magistério.
Assim me tornei educadora, acreditando no futuro, nos homens.
Diante disso, as palavras do filósofo Antônio Gramsci me fazem refletir, “as indagações sobre o homem marcam nossa reflexão sobre nós mesmos e sobre os outros, sobre o que queremos saber, e em relação ao que pensamos, ao que vimos e vivemos”.
Por isso, faço do diálogo a marca na minha formação; sinto – me impulsionada a acreditar que "tudo vale a pena, se alma não é pequena"; “ que querer é poder”.

2. FORMAÇÃO ACADÊMICA:

Em 1986 ingressei-me no curso de Português / Francês, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caratinga- MG. Tinha convicção do curso que queria.
Encontrei muitos obstáculos: o curso era em outra cidade e precisava de um trabalho para custear minhas despesas. Consegui meu primeiro emprego na Prefeitura Municipal de Coronel Fabricano; ganhava salário mínimo, o que era destinado somente às mensalidades da Faculdade. Para chegar até lá, contava com caronas. Licenciei-me em Letras, no ano de 1989. Sentia necessidade de me aperfeiçoar para me adequar às novas exigências do mercado. Tinha olhar e desejo de águia. Foi então que em 1992, iniciei minha especialização em Língua Portuguesa e suas Literaturas.
Dedico–me aos estudos nesta área, pois tenho consciência de que só com os conhecimentos adquiridos na faculdade ficarei parada no tempo.

3. REFLEXÕES PEDAGÓGICAS:

Escola é ...
O lugar que se faz amigos.
Não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, horários, conceitos...
Escola é, sobretudo gente
Gente que trabalha, que estuda
Que se alegra, se conhece, se estima”. (Paulo Freire)
Fui impulsionada, no início da minha docência, com a riqueza desses versos de Paulo Freire, idealizei minha prática pedagógica, tracei a rota, me alegrei várias vezes com eles e também me decepcionei. Fiz grandes amigos e conquistei vários colegas. Aprendi a conviver com as diferenças e a trabalhar de acordo com a realidade em que estou inserida.
Acredito que o espaço escolar é o palco das relações entre pessoas, cultura e cotidiano, devendo romper a cada dia com a lógica transmissiva, que insiste em vê-lo apenas como lugar de instrução, de reprodução de dogmas e estigmas.
Sei que as estratégias educacionais devem possibilitar o intercâmbio entre a experiência do aluno, com o saber produzido pela sociedade, e favorecer o desenvolvimento da capacidade de superar esse saber, viabilizando a construção do conhecimento. Neste contexto, a apropriação do conhecimento disponível requer uma atitude positiva, construtiva, criativa e crítica por parte do educador e do educando porque a produção de conhecimento se constrói a partir da relação entre sujeito e a pluralidade da realidade.
Vivencio sempre momentos especiais na escola onde trabalho, repensando ações, organizações, concepções, pois a escola não está estacionada num espaço de tempo; ela é dinâmica, inclusiva.
A reconstrução da identidade do educador, sua nova postura, é o alvo da situação. Repensar a prática pedagógica, reconhecer a diversidade cultural na instituição escolar, construir sua identidade como educador é um grande passo para resgatar a sala de aula como espaço público.
Entendo que a nova prática pedagógica deve se basear no diálogo constante entre a realidade vivida e a realidade passada, abolindo os conhecimentos prontos e acabados, viabilizando a reflexão, o debate, o questionamento da realidade, facilitando a compreensão e interpretação dos fatos.
Essas reflexões fazem a diferença na área de Códigos e Linguagens porque a Língua está em constante mudança, a exemplo disso, o Acordo Ortográfico já em vigor: “As palavras caem como folhas secas.” (Ledo Ivo)
Para aprender e ensinar a Língua Portuguesa, é preciso considerar que o educando já usa o idioma cotidianamente, já domina pelo menos uma variedade dessa língua e que é necessário expandir sua capacidade de uso, estimulando o desenvolvimento das habilidades de se comunicar em diferentes gêneros de discursos.
Sendo assim, o educador deve ter clareza do que pretende ensinar ter consciência do público a quem ensina e para que ensinar, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada educando, selecionando os conteúdos em função dos objetivos do projeto educativo da escola.





4. EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

As reflexões pedagógicas esclarecem minha prática profissional construída ao longo de 24 anos de trabalho efetivo na rede municipal e 22 na rede estadual de ensino.
Atuei como professora de Jovens e Adultos no antigo Mobral, antes da minha formação acadêmica. Nessa época, aprendi a trabalhar de acordo com as necessidades dos educandos e da comunidade onde estavam inseridos. Conheci a “palavra geradora” apresentada nas cartilhas e hoje criticada por muitos educadores. Desconhecia a terminologia Gêneros textuais, conforme propõe Bakhtin, mas direcionava minhas aulas valorizando a leitura e a escrita dentro de um sentido e do contexto de produção.
Na educação infantil vivenciei, recuperei o imaginário infantil que ainda se escondia em mim, Nesse período, cursava a Faculdade e trabalhava com jornada dupla nas escolas municipais: “ Otávio Cupertino dos Reis” e “ Joaquim de Ávila Neto”, nessa trabalhei com a pré - escola, minha sala de aula era a varanda da vizinha da escola.
Era momento de aplicar o que havia aprendido na Faculdade. Fui convidada pela Supervisora Terezinha Carvalho a lecionar Língua Portuguesa para as séries finais do Ensino Fundamental na Escola M. “Nicanor Ataíde”. Lecionei durante 09 anos para as 5as séries; aplicava as reflexões já citadas, tinha prazer em sair da minha casa para trabalhar. Dessa escola, guardo todos os versos de Paulo Freire: “ Escola é...” . Planejava minhas aulas, lembrando- me de cada aluno. Tínhamos o cantinho de Literatura, Leitura em rodas, músicas para ensinar os conteúdos significativos, Festas Culturais, Dramatizações no pátio, Festas da Comunidade, construção coletiva de um livro de literatura envolvendo a linguagem, o discurso dos textos lidos em classe. Isso tudo me encantava. Nesse estabelecimento fui valorizada, respeitada e muito feliz.
Os anos 90 me reservariam muitas surpresas pessoais e profissionais, casamento, maternidade, falecimento de meu pai. A necessidade de conciliar esse novo contexto me fez decidir mudar da amada Nicanor para a E. M. “ Argeu Brandão”. Fui recebida com muito carinho, mas aquele espaço parecia não ser meu. Sentia-me várias vezes uma intrusa, um peixe fora d´agua. Superei tudo demonstrando meu carinho, preocupação e prendi amar todos . Apliquei com afinco todas as minhas experiências adquiridas. Nessa época, a educação já apresentava sinais de alerta, fazia mais leituras, estudos para atender as necessidades de leitura e escrita apresentadas por muitos alunos das 8ª séries.
Foi nessa escola que apliquei os conhecimentos adquiridos através de leituras de Magda Becker Soares, doutora em educação, e Bakhtin com sua teoria da enunciação. Participei de Projetos elaborados coletivamente, visando dar uma melhor qualidade de vida e de ensino para aqueles alunos e construí também alguns que atendessem às dificuldades já citadas. Ressalto os Projetos: “LER É UM PRAZER, ESCREVER TAMBÉM”, “O PEQUENO POETA”, “LER E COÇAR É SÓ COMEÇAR”, “AS HQS”, “CONTOS MARAVILHOSOS”, “A MAGIA DO ESPELHO”, “LENDAS URBANAS”, “O JORNAL NA SALA DE AULA”, "DENGUE". Na elaboração de tais projetos, levei em consideração a contextualização, o contexto de produção, a circulação, a recepção, a organização temática, os efeitos de sentidos, a enunciação, as vozes do discurso, intertextualidade e os critérios de seleção de conteúdo.
No Ensino Médio, realizei outros projetos envolvendo o domínio de leitura e de escrita. Vale a pena ressaltar alguns: “Poesia Palaciana”, Os Gêneros e os Discursos”, “Oficinas de Textos Poéticos”, “O texto teatral”, “A poesia de Cordel”, “O Jornal na Sala de Aula”, “Texto e Discurso”, Oficina de Produção textual: O discurso argumentativo, o Cartaz na sala de Aula : Giovannini vivenciando valores.
De 2000 a 2002, atuei como Coordenadora Pedagógica da Escola M.“Argeu Brandão”, acompanhei o desenvolvimento do ensino e aprendizagem das séries finais do Ensino Fundamental e colaborei na construção de um Jornal da Escola, denominado “ Escola Sempre”, que tinha o objetivo de divulgar os trabalhos realizados na instituição.
Em 2004, fui convidada pela Secretária Municipal, Maria Esméria, para coordenar a Educação de Jovens e Adultos, na E.E. “Francisco Letro”, anexo da E. M. “Argeu Brandão”. Durante os 04 meses que trabalhei, acompanhei o desenvolvimento de Projetos em desenvolvimento, o ensino e aprendizagem dos educandos. O tempo foi muito curto para que pudesse elaborar e estruturar um novo projeto de trabalho.
Em 2007, ministrei uma palestra, no Centro de Arte de Coronel Fabriciano, aos alunos da Escola Estadual “Geraldo Perlingeiro de Abreu”, com o tema: Gêneros textuais.
Em 2008, participei das Olimpíadas da Língua Portuguesa; Escrevendo o Futuro, cujo tema era O Lugar Onde Vivo. Tive aprovação municipal nos dois níveis de ensino, Fundamental e Médio. O tema era o mesmo, mas o gênero se diferenciou em POEMA e ARTIGO DE OPINIÃO.
Atualmente leciono Língua Portuguesa na Educação de Jovens e Adultos e no Ensino Médio e Informática Aplicada à Educação Infantil para o Curso Normal.
As citações abaixo concluem minha trajetória profissional e me impulsiona a seguir sempre em frente:
"Tão importante quanto o que se ensina e se aprende é como se ensina e como se aprende". (César Coll)




5. BIBLIOGRAFIA:

BAKHTIN, M. Estética da Criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
SOARES, M. B. Linguagem e Escola: Uma Perspectiva Social. São Paulo: Ática, 1985.
VASCONCELLOS, C. S. Para onde vai o professor? Resgate do professor como sujeito de transformação. 8 ed. São Paulo: Liberdade, 2001. 205 p. (Coleção subsídios pedagógicos, v. 1)
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários á prática educativa. São Paulo: Paz terra, 1996.
COSCARELLI,Carla Viana. Novas tecnologias, novos textos, novas formas de pensar. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
PRETI, Dino (Org.). Fala e escrita em questão. 2.ed. São Paulo: Humanitas.
FÁVERO, Leonor Lopes, ANDRADE, Maria Lúcia C.V.O., AQUINO, Zilda G.O. Oralidade e escrita: perspectivas para a língua materna. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2003.

LETRAMENTO TP4

OFICINAS

Aparecida Germano, coordenadora da E. M. "Argeu Brandão"- Oficina TP4 - Letramento

Raquel professora e Áurea vice -diretora da E. M. "Nicanor Ataíde" dupla fantástica. Relato de experiências TP3 : O texto instrucional



Marluce e Maria Lúcia da E. M. "Maria da Conceição Ataíde" apresentando cartão postal construído pelos alunos do Cocais. Participação, encanto e muito alegria!



Rosângela, só alegria. Professora da E. M. "Argeu Brandão" e coordenadora da E.M. " Maria das Graças Ferreira".Relato de experiências TP4 : Produção de texto.



Celeste , Dilma, Marluce e Maria Lúcia na oficina TP3 - construindo cartaz, anúncios ... Quarteto perfeito, inovação, criatividade ...



Elizabete, Rita Rosineia e Juliana - Oficina de Gêneros textuais. Esse grupo é perfeito!




Aqui é só empolgação! Amigas para sempre...



Raquel em cada encontro muitas novidades. TP4 - Letramento



Adriana Cláudia da E.M. " Paulo Franklin" - TP 4 Letramento. A cada encontro um novo encanto.



Rita Rosineia, Professora da E. M. " Raimunda Coura" e coordenadora da E. M. " Paulo Franklin"- TP 4 - Inferências .


José Célio Magalhães da E. M. " Paulo Franklin" marcando grande presença em nossos encontros. Relato de experiências TP3: Gêneros textuais.

Oficina: Detetive da Palavra - TP 4 . Raquel e Rosângela



Eliane Gatti da E. M. " Maria das Graças Ferreira" - relato de experiências da TP4



Célia Barbosa da E. M. " Nicanor Ataíde" - relato de experiências da TP4 - Letramento



Marlene da E. M. " Paulo Franklin" e Rosângela - Relato de experiências TP4 . Maquete do poema Cidadezinha Qualquer . Grande apresentação!


Celeste,professora e coordenadora da E.M. "Argeu Brandão". O poema, Cidadezinha Qualquer de Carlos D. de Andrade, teve momento especial na TP4, relato de experiências com entusiamo e muita dedicação.

Dilma Reis da E. M. " Argeu Brandão"- Relato de experiências TP4 - Mandala com o poema Cidadezinha Qualquer. Criatividade sempre em alta, show de apresentação!


Rita Rosineia e Juliana - TP4 Oficina 08


Juliana da E. M. "Argeu Brandão" - Oficina 08 da TP4 - Entusiasmo, alegria sempre!


Dilma e Celeste apresentando oficina 08 da TP4 em Inglês, foi o máximo!


Marina e Jósé Célio da E.M. Paulo Franklin"- oficina 08 da TP4 . Participação, alegria compromisso. Tudo de bom!













GAIOLAS E ASAS

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é "dígrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".
O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos". "Ferramentas" são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.
Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer. Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?" Se não for, é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o voo dos seus alunos.
Há esperança...
Rubem Alves, 68, educador, psicanalista e escritor, é professor emérito da Unicamp e autor de, entre outros, "A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir" (Papirus). http://www.rubemalves.com.br/
Folha de SP, Opinião,

VIDEO SABER E SABOR

"Educar não é ensinar respostas, educar é ensinar a pensar".

Este vídeo foi usado para debate na oficina da TP4: Leitura, escrita e cultura.

ENCONTROS DO 1º SEMESTRE

CURSISTAS MUNICIPAIS

1. Adriana Cláudia de Souza
2. Áurea Maria K. Nobre
3. Célia da Conceição Barbosa
4. Dilma de Souza Reis
5. Eliane Gatti Coelho
6. Elizabete Maria Silva
7. José Célio de Magalhães
8. Juliana da Silva Fonseca
9. Maria Aparecida Germano
10. Maria Celeste de Oliveira
11. Maria Lúcia Prata
12. Marina Martins Nunes
13. Marlene Silva
14. Marluce de Andrade
15. Raquel de Andrade
16. Rita Rosineia de Castro
17. Rosangela Maria Alves
18. Priscila Silva Correa
19. Zélia Rodrigues Pereira
20. Andreza Alves Pereira.